Espacios. Espacios. Vol. 31 (3) 2010. Pág. 44

Desenvolvimento de melhorias em serviços: QFD e SFMEA como ferramentas na fidelização de clientes de uma farmácia de manipulação

Development of improvements in services: QFD and SFMEA as tools in the loyalty of a manipulation pharmacy

Desarrollo de mejoras en servicios: QFD y SFMEA como herramientas en la fidelización de clientes de una farmacia de manipulación

Patrícia Flores Magnago, Vera Lúcia Milani Martins, Armando Resende Neto, Angélica Alebrant Mendes, Flávia Santos Twardowski Pinto y Márcia Elisa Soares Echeveste*

Recibido: 08-10-2009 - Aprobado: 15-05-2010


Contenido


RESUMO:
Uma importante informação requerida pelas empresas de serviços é a identificação de demandas de qualidades. Esta tarefa pode ter maior complexidade se as demandas são de consumidores não-usuários e quando os processos do serviço são meios de garantia da fidelização destes. No intuito de contribuir com esta questão, este trabalho apresentou o uso sequencial das ferramentas QFD e SFMEA no contexto de serviços. Como resultado, apresentou-se sugestões de planos de melhorias à etapa crítica, constatando que não houve barreiras para a operacionalização das ferramentas no novo contexto. A empresa que serviu de modelo foi uma farmácia de manipulação.
Palavras-Chave: QFD e SFMEA, Fidelização, Farmácias de Manipulação.

ABSTRACT:
An important information required by service companies is the identification of qualities demands. This task can be more complex if the demands are non-users consumers and when the service processes are the means to secure the loyalty of them. To contribute to this issue, this paper presented the sequential use of QFD and SFMEA within the services environment. As a result, it was made suggestions for improvements plans to the critical step, proving that there were no barriers to the operationalization of the tools in the new context. The company that served as the model was a manipulation pharmacy.
Key-Words: QFD and SFMEA, Loyalty, Manipulation Pharmacies

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RESUMEN:
Una información importante requerida por las empresas de servicios es la identificación de demandas de calidad. Esta tarea puede tener mayor complejidad si las demandas son de consumidores no-usuarios y cuando los procesos del servicio son medios de garantía da fidelización de estos. Con la intención de contribuir con esta cuestión, este trabajo presenta el uso secuencial de las herramientas QFD y SFMEA en el contexto de servicios. Como resultado, se presentó sugestiones de planos de mejoras a la etapa crítica, constatando que no hubo barreras para la operacionalización de las herramientas en el nuevo contexto. La empresa que sirvió de modelo fue una farmacia de manipulación.
Palabras-Clave: QFD y SFMEA, Fidelización, Farmacias de Manipulación

1. Introdução

Um dos objetivos de todas as organizações é a conquista da fidelidade dos clientes (Paiva, 2004). Fidelizar é transformar um comprador eventual em um comprador frequente, que retorna e divulga a empresa, de modo a criar um relacionamento de longo prazo (Rocha; Veloso, 1999). A fidelização de clientes é um caminho essencial para as empresas competirem em mercados concorridos, uma vez que a rentabilidade das empresas normalmente é assegurada pelos seus clientes fiéis (Oliveira et al., 2004).

As organizações que, além de se importarem com a rentabilidade, estiverem preocupadas com o crescimento e o retorno em longo prazo, são aquelas que precisam investir na fidelização (Reichheld, 2003). Por outro lado, para os clientes, alguns dos benefícios da fidelização são: a facilidade de decisão de compra, a simplificação das informações recebidas e a redução do percentual de riscos associados às futuras escolhas (Godoy, 2003). A fidelidade do consumidor é afetada por sua satisfação em relação ao serviço adquirido (Bitner, 1990; Dick; Basu, 1994; Oliver, 1999), ou seja, é influenciada pela qualidade percebida dos serviços e produtos e o preço cobrado por estes (Bei; Chiao, 2001).

Para conhecer as demandas de qualidade dos consumidores é preciso entender suas necessidades e desejos. No entanto, traduzir o que o cliente espera das especificações dos produtos e serviços da empresa pode não ser uma atividade fácil (Sonda et al., 2000). Qualidades demandadas por produtos e serviços podem ser investigadas por meio de técnicas de pesquisa de mercado, para prospectar percepções e expectativas de um mercado-alvo. Contudo, identificar novas demandas de qualidade não elimina a possibilidade de aprimoramento de demandas já existentes. Principalmente aquelas relacionadas aos serviços, pois estas podem ser percebidas de forma diferente por cada indivíduo (Silva; Varvakis, 2000) ou, até mesmo, percebidas de diferentes maneiras por um mesmo indivíduo, dependendo a ocasião (Slack et al., 2002).

As informações obtidas pela pesquisa de mercado tornam-se compreensíveis e factíveis com o uso de ferramentas adequadas, que traduzam aos gestores da qualidade quais são as necessidades latentes e qual o grau de importância destas para os clientes. Com isso, pode-se estabelecer uma relação do atendimento das demandas por meio de características incorporadas ao produto ou serviço. Na manufatura ferramentas consagradas como o QFD e FMEA auxiliam esta função. Em empresas de serviços, existe dificuldade em identificar tais necessidades e traduzi-las de forma estruturada para os processos internos, neste sentido, a busca da fidelização dos clientes envolve maior complexidade. No intuito de contribuir com esta questão, este trabalho tem como objetivo apresentar o uso sequencial de QFD (Quality Function Deployment) e SFMEA (Service Failure Mode and Effects Analysis) para o ambiente de serviços, realizando uma análise da operacionalização neste novo contexto. A empresa baseada em serviços que serviu de modelo neste estudo trata-se de uma farmácia de manipulação.

O artigo esta organizado em seis seções. Na primeira seção, apresenta-se uma introdução ao tema de estudo, no qual são apresentadas as características do mercado e a necessidade de fidelização dos profissionais da área de saúde. Na segunda seção, apresenta-se uma revisão bibliográfica sobre QFD, SFMEA e as possibilidades de combinação entre QFD e FMEA. Na seção três é realizada uma síntese quanto aos procedimentos metodológicos da pesquisa, apresentando o modelo conceitual utilizado. Na seção quatro são apresentados os resultados do estudo de caso na farmácia de manipulação, na seção cinco é realizada uma análise crítica sobre a combinação. Por fim, na seção seis, são descritas as conclusões do trabalho.

2. Referencial Teórico

Nesta seção será apresentada uma revisão da literatura sobre QFD e SFMEA, enfocando tanto aplicações em produtos como adaptações para serviços e, por fim, formas de combinação de QFD e FMEA, com a finalidade de uniformizar os conceitos sobre estes tópicos.

2.1 Desdobramento da Função Qualidade - QFD

O QFD é uma ferramenta que tem por objetivo traduzir e identificar os principais requisitos dos clientes em especificações de projeto, desdobrando estas especificações para cada etapa do processo de desenvolvimento de um serviço ou produto (Carnevalli; Miguel; Calarge, 2005). O QFD não é o único meio de identificação e priorização dos requisitos a Gestão da Qualidade Total também pontua os requisitos relacionando-os com critérios de sucesso e o Controla também foi um sistema desenvolvido para este princípio e é apresentado no trabalho de Fraga Filho (2005).

Segundo Cheng e Melo Filho (2007) o QFD pode ser definido como uma forma de comunicar sistematicamente a informação relacionada com a qualidade e de explicitar ordenadamente o trabalho relacionado com a obtenção da qualidade. Possui como objetivo alcançar o enfoque da garantia da qualidade durante o desenvolvimento de produto e é subdividido em Desdobramento da Qualidade (QD) e Desdobramento da Função Qualidade no sentido restrito (QFDr).

O método do QFD foi desenvolvido por dois professores –Akao e Mizuno – no final da década de 60. O modelo de QFD foi ampliado a partir de então através do acréscimo de vários elementos conceituais e metodológicos, resultando em um modelo amplo de QFD e num compêndio de formas alternativas de sua aplicação (Melo Filho; Cheng, 2007). A partir de 1986 o QFD difundiu-se nos EUA com características distintas das então aplicadas (Melo Filho; Cheng, 2007). Naquele país, existem duas versões diferentes. A primeira e mais conhecida caracteriza-se por quatro desdobramentos principais: (i) planejamento do produto; (ii) desdobramento dos componentes, (iii) planejamento do processo e (iv) planejamento da produção. Esta versão simplificada não incorporou os avanços da prática do método (Clausing, 1994). A segunda, difundida pela Goal/QPC de Bob King, caracteriza o QFD como um desdobramento sistemático de matrizes ao invés de tabelas. Esta versão não faz distinção de modelos conceituais, o que na visão japonesa é um requisito básico para estudos em diferentes indústrias.

Na sua forma tradicional, o QFD é freqüentemente apresentado contemplando quatro matrizes: (i) matriz da qualidade; (ii) matriz do produto; (iii) matriz de processos e (iv) matriz de recursos. Assim, o uso do QFD, originalmente concebido para solução de problemas de qualidade, fornece o suporte para as equipes de desenvolvimento de produtos. Isto se deve ao fato de que essas quatro matrizes relacionam a demanda do consumidor com as especificações de engenharia, possibilitando o projeto dos componentes do produto e a definição das especificações das variáveis dos processos de produção, bem como a alocação inicial de recursos operacionais (Govers, 1996).

Durante a aplicação do QFD, é necessário levantar informações sobre diferentes agentes, como mercado-alvo, necessidades dos clientes e suas priorizações, análises de concorrência, grau de correlações, entre outros. Essas informações servem de entrada na utilização das unidades operacionais do método (tabelas, matrizes, modelos conceituais e padrões), na maioria das vezes, não estão facilmente disponíveis, são obtidas de fontes duvidosas ou merecem um tratamento mais criterioso em relação às necessidades de quem as aplica. Para obtenção e análise dessas informações, utilizam-se técnicas estatísticas (Cheng; Melo Filho, 2007).

2.2 Service Failure Mode and Effect Analysis - SFMEA

A Análise de Modos e Efeitos de Falha (FMEA) é uma ferramenta indutiva, estruturada e lógica para identificar ou antecipar as causas e efeitos dos possíveis problemas de um sistema. Sua utilização resulta em ações preventivas, classificadas de acordo com sua criticidade, que buscam eliminar ou minimizar causas e efeitos das falhas (Lafraia, 2001). Para a aplicação da FMEA em serviços é necessária uma adaptação da FMEA tradicional, incorporando elementos que abordam os aspectos específicos da prestação de serviços. A FMEA em serviços, ou SFMEA, é uma ferramenta de prevenção para os momentos em que o cliente está presente no processo de prestação de serviços, denominados ‘momentos da verdade’, no qual a produção e o consumo ocorrem de forma simultânea (Rotondaro, 2002).

A aplicação da SFMEA requer que, inicialmente, seja desenhado o fluxo de prestação do serviço, para a determinação dos momentos da verdade e classificação quanto a sua importância para o sucesso do serviço. Para cada momento da verdade crítico, são feitas as seguintes verificações: que tipos de falha podem ocorrer durante sua execução, o modo como estas falhas podem ocorrer, os efeitos sobre o cliente caso a falha ocorra, os controles existentes nas fases anteriores à execução do serviço e, caso a falha ocorra, o que deve ser feito para recuperar a satisfação do cliente (Rotondaro, 2002).

Segundo Gianesi (1994) na aplicação do FMEA não estão diferenciadas as ações de linha de frente, as ações de retaguarda e ações de suporte preparatórias para serviços. Diferentemente do que é apresentado pela SFMEA, onde a correção das falhas ocorre durante o atendimento ao cliente, na linha de frente.

A Figura 1 apresenta uma planilha com a matriz da SFMEA. Cada elemento da matriz é definido a seguir segundo Rotondaro (2002): (i) Momento da verdade: pontos do fluxo de prestação de serviço onde o cliente entra em contato com algum aspecto do serviço; (ii) Modo de falha potencial: é a maneira pela qual um processo poderá falhar em satisfazer o cliente; (iii) Efeito potencial da falha: são os efeitos do tipo de falha sobre o cliente, descritos em termos do que o cliente poderá sentir; (iv) Severidade do efeito (S): importância do efeito sobre o cliente, onde 1 representa não severo e 5 muito severo; (v) Causas de falhas potenciais: é a maneira como a falha pode ocorrer, descrita em termos de algo que possa ser corrigido ou controlado; (vi) Ocorrência da causa (O): frequência com que a causa ocorre e gera um modo de falha, onde 1 significa probabilidade remota de ocorrência e 5 falha certa; (vii) Controles de processos atuais: controles existentes no back room que impedem ou detectam a ocorrência da falha; (viii) Detecção (D): capacidade do sistema detectar as causas antes da falha ocorrer ou de detectar a falha antes do cliente, onde 1 representa a certeza de encontrar a falha e 5 a certeza da não detecção; (ix) Recuperação (R): é a capacidade de o processo recuperar o serviço antes do cliente perceber a falha ou assim que o cliente perceber, de forma que ele aceite a recuperação e as consequências da falha sejam minimizadas. Escala de 1 a 5 onde 1 representa a existência de um processo de recuperação antes do cliente perceber a falha e 5 representa a inexistência de recuperação; (x) Número de prioridade de risco (RPN): índice de priorização de ações preventivas, quanto maior o RPN mais alto o risco da falha.

O RPN é calculado multiplicando os índices de severidade, ocorrência, detecção e recuperação; (xi) Ações recomendadas: são ações preventivas que modificam o processo de prestação de serviço e reduzem a probabilidade de falhas; (xii) RPN resultante: é o novo índice após a implementação da ação preventiva.

Figura 1. Cabeçalho da Matriz da SFMEA


2.3 Combinação entre QFD e FMEA

Desenvolvidas na década de 1960, QFD e FMEA são ferramentas complementares que tratam, em última análise, dos mesmos requisitos e percepções do consumidor para um determinado produto ou serviço. Ginn et al., (1998) argumentam que enquanto o QFD é o guardião da “voz do cliente”, a FMEA seria o guardião da “voz do engenheiro”. Estas duas ferramentas da qualidade lidam com o mesmo tema da satisfação do consumidor, mas de perspectivas diferentes de qualidades positivas e negativas. Neste cenário, QFD e FMEA são mais do que apenas ferramentas técnicas, mas também, na prática, ferramentas importantes de comunicação entre os times de desenvolvimento e produção.

Três modelos de integração entre o QFD e o FMEA se destacam na literatura. Propostos por Fernandes e Rebelato (2006) e Cheng e Melo Filho (2007) os métodos propõem a união entre FMEA e QFD de maneiras e em extensões diferentes.

Para Fernandes e Rebelato (2006), cada saída dos ciclos de desdobramentos do QFD (a saber: desenvolvimento das necessidades dos clientes, projeto do produto e componentes, projeto do processo e projeto do controle do processo) alimenta as entradas para três diferentes FMEAS (sistema, produto e processo). As severidades da FMEA são dadas pela importância relativa calculada para os requisitos de cada desdobramento do QFD. Nesta abordagem, o grau de importância do componente que pode falhar será igual ao grau de importância da falha. Assim, a FMEA passa a ter seus modos de falha ligados direta¬mente ou indiretamente às necessidades e aos requisitos de QFD, tornando a avaliação de risco um indicador mais fiel ao não-atendimento das expectativas do produto. Apresentado em dezenove etapas sequenciais, o método se mostra indicado para empresas que buscam a redução do número de falhas de modo sistemático.

No método proposto de Cheng e Melo Filho (2007) a FMEA é utilizada de forma sequencial ao QFD. Primeiramente são priorizados os componentes do produto em relação ao seu grau de importância no atendimento às necessidades do consumidor. A partir desta priorização, o FMEA é aplicado de modo tradicional para os componentes avaliados como críticos pelo QFD. Assim, o QFD auxilia o FMEA priorizando os componentes que devem ser avaliados. Novas metodologias têm sido propostas para integrar as visões do QFD e FMEA em um diagrama de decisão que cruza os valores dos índices do QFD com os índices da FMEA. Esta abordagem visa à priorização de aspectos e componentes do produto durante o desenvolvimento, de acordo com sua importância para a qualidade e confiabilidade do produto. Além disso, para a avaliação dos componentes do produto através do diagrama proposto, os autores apresentam uma modificação da FMEA, associando suas escalas com critérios financeiros, tornando-o um indicador menos subjetivo que a FMEA tradicional. O diagrama proposto é desenhado a partir de dois eixos, levando em consideração a importância da parte para a qualidade (resultado do QFD) e a importância da parte para a confiabilidade (proveniente da FMEA). Dessa maneira, o projetista pode se guiar pelos quadrantes do diagrama, que posicionam o componente em relação à sua criticidade.

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