Espacios. Vol. 34 (2) 2013. Pág. 12


Santa Cruz do Capibaribe-Pe: A Transferência da Feira e o esvaziamento do Centro Antigo

Santa Cruz's Capibaribe-Pe: The Transfer Fair and emptying the Old Town

Mônica Luize Sarabia 1, Luis de La Mora 2 y Maria Gilca Pinto Xavier 3

Recibido: 18-05-2012 - Aprobado: 15-10-2012


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RESUMO:
O artigo aborda a transformação espacial da cidade de Santa Cruz do Capibaribe, localizada no agreste pernambucano, destacando a modificação do seu lócus produtivo em decorrência da retirada da feira da Sulanca, que funcionava em 28 ruas do centro da cidade, transferida para o novo empreendimento comercial "Moda Center Santa Cruz", localizado na periferia da cidade. A abordagem da pesquisa é qualitativa e utiliza uma grande quantidade de documentos oficiais, fotografias e entrevistas. A pesquisa histórica busca ressaltar o processo de produção do espaço urbano da cidade privilegiando os momentos das décadas de 1980,1990 e a realidade atual.Trás à tona a problemática dos impactos ocorridos na estrutura urbana da cidade a partir da consolidação de uma nova centralidade na periferia, abrigando a principal atividade comercial da cidade, a confecção. Busca assim interpretar os conflitos e consensos originados destas modificações, detectando as necessidades de requalificação do espaço da cidade dentro das novas perspectivas físicas, econômicas e sociais.
Palavras-chave: feira de rua, centralidade, estrutura urbana.

 

ABSTRACT:
The paper examines the urban spatial transformation of Santa Cruz do Capibaribe located in rural area of Pernambuco State, highlighting the change of productive area due to the removal of Sulanca´s Fair, which happens on 28 streets of the city center, transferred to the new marketplace "Moda Center Santa Cruz, located on the city suburb. The research is qualitative and uses official documents, photographs and interviews focusing on the moments of the 80, 90 and reality until today. The article shows the impacts in the structure of the city from the consolidation of a new area with the main commercial activity that originated these modifications, such us physical, economic and social.
Keywords: street fair, centrality, urban structure.


1. Introdução

A pesquisa analisa uma região deprimida, caracterizada pelo capitalismo tardio, onde as relações de produção capitalista são capazes de modificar a função  e o uso do espaço, visando maiores possibilidades de aumentarem os lucros. Assim, surgem novos espaços, modifica-se a função de antigos  ou desaparece  a utilidade produtiva de outros, conforme afirma Mello (1982). O objetivo do trabalho foi discutir a expansão urbana e a consolidação de um dupla centralidade num espaço definido por seu capitalismo tardio. A cidade de Santa Cruz do Capibaribe foi analisada a partir da sua transformação urbana decorrente da mudança do local de atividade de produção e comercialização ocorrida no ano de 2006.

Muitos autores examinam  os fatos urbanos de forma mais ampla, isto é, no nível de rede urbana e também em forma singular, por uma organização nuclear, em nível de centro urbano (REIS FILHO, 1968, p.22-24), como é o caso das análises feitas neste trabalho.

Assim, a cidade passou por uma mudança de seu local de prática das atividades comerciais com a remoção da Feira da Sulanca das ruas centrais. O deslocamento da feira da região central para um centro comercial com grande infraestrutura, localizado na periferia da cidade, foi implementado pela administração municipal, para resolver os problemas de supersaturação e ocupação do espaço central da cidade, bem como do sistema viário, com equipamentos temporários para a comercialização de produtos têxteis (barracas da feira de confecções).

O centro urbano tradicional se encontra, do ponto de vista físico (conservação das ruas, calçadas, praças e demais equipamentos públicos), no estado como ficara no dia da retirada da feira da Sulanca de suas ruas. Nenhum projeto de revitalização foi implementado, nem houve reformas das ruas e calçamentos, muito menos a reconstrução das praças, importantes espaços públicos de convívio. O que tem-se modificado são as funções e o padrão de uso de solo e uma preocupação com a atração de novos tipos de comércio para se instalarem nas ruas do centro antigo.

2. Os antecedentes históricos e geográficos que caracterizam a produção do espaço na cidade

 A cidade de Santa Cruz do Capibaribe está localizada no agreste setentrional pernambucano, na microrregião do Alto Capibaribe, circundada pelas cidades da a Aglomeração Produtiva Local (APL) da confecção de vestuário (Mapa 1), de relevada importância para a economia estadual, composta pelas cidades de Caruaru, Toritama, Taquaritinga do Norte, Vertentes, Brejo da Madre de Deus, Frei Miguelino, dentre outras (XAVIER, 2006).  Atualmente, a região é considerada como um dos principaispólos regionais de desenvolvimento do Estado.

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Mapa 1: A Aglomeração Produtiva do Agreste Pernambucano – Fonte: Xavier (2006).

A principal característica da cidade é a intensa produção e circulação de mercadorias na zona do Agreste, embora se situe no contexto das condições de precariedade de lugares de capitalismo tardio, como definiu Xavier (2006, p. 63). Analisando-se a própria cidade, observa-se a informalidade e a flexibilidade fazem parte de um mesmo contexto. Assim é que os trabalhadores, chegam a se instalar por conta própria em suas casas e iniciam um novo empreendimento, criando o espaço  de produção urbana.

A indústria e o comércio de confecções são a base da economia, além da comercialização de tecidos, de retalhos e aviamentos. A economia cresceu mais de 40% no último ano, embora a participação da economia da cidade no PIB do Estado represente apenas 0,45%. (CONDEPE/FIDEM, 2004).

É a flexibilidade, no que diz respeito ás adaptações da população á economia informal e sua dinâmica de transformação econômica que torna a cidade de Santa Cruz do Capibaribe um fenômeno a ser analisado.  Isso pode ser demonstrado na grande relevância da economia de confecção na cidade, observada a partir da dinâmica de geração de emprego e renda para a população da região. Esse fenômeno refletiu no processo de ocupação urbana através de grande movimento migratório para a localidade, na época de crescimento entre a década de 1980 aos dias atuais.  O acontecimento refletiu diretamente em um acelerado crescimento populacional, a cidade teve taxa de crescimento de 5,7% ao ano no período 1991/2000, o que significa dobrar a população aproximadamente a cada 12,5 anos, se mantida a mesma taxa de crescimento. Trata-se de uma explosão demográfica face ao desenvolvimento municipal que a feira e outras atividades agregadas à confecção impulsionaram.

A produção ainda hoje é escoada, também através da Sulanca 4, que era uma feira de rua, hoje está estabelecida no “Moda Center Santa Cruz”. E a feira de Santa Cruz do Capibaribe teve o seu início na década de 1940 em apenas uma rua do centro, a Rua Siqueira Campos. O termo ‘feira da Sulanca’, surgiu nos anos 1960, quando começaram a fabricar e vender na feira da cidade as primeiras peças de vestuário, utilizando retalhos de helanca trazidos de São Paulo (XAVIER, 2006).

Assim a evolução urbana da cidade de Santa Cruz do Capibaribe não pode ser dissociada da expansão da Feira da Sulanca que ocupou seus espaços públicos, isto é, as ruas e praças na região central da cidade.

 Como apontam alguns a urbanização demonstra que é um processo social, onde origem da cidade é apoiada constituição da sociedade, no surgimento do fato urbano como um todo organizado, que inclui aspectos econômicos, sociais, político-administrativos, militares, demográficos, psicológicos etc. (REIS FILHO, 1968, p.22-24).

O processo social da constituição da cidade passou absorveu as diversas formas de organização da feira da Sulanca, iniciou-se no Pátio da Rua Padre Zuzinha, depois foi transferida para a Rua Siqueira Campos, seguida pela Rua do Pátio, atual Rua Raimundo Francisco Aragão As peças antes colocadas nas calçadas foram, já em 1960, postas em bancos de madeira. A ocupação urbana da feira, no ano de 2006, chegou a 28 ruas do centro, conforme mostra o Mapa 2.

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Mapa 2: Centro de Santa Cruz do Capibaribe. As ruas destacadas em amarelo indicam a localização da Feira da Sulanca (28 ruas) e a seta vermelha indica a Rua Siqueira Campos, onde a feira iniciou na década de 1940. - Ano 2006 –
Elaborado pelos autores a partir de mapa urbano comercializado em papelarias.

Após 40 anos de ocupação das ruas e de crescimento da feira, as mercadorias continuavam a ser expostas em bancos de madeira, apesar da sua expansão por outras vias públicas. As Figuras 2 e 3 mostram a forma rudimentar de comercialização e o estado em que ficavam as ruas da cidade após o término de um dia de feira. (História Oral da cidade, entrevista em 2007).

Figura 1 e 2: Final de Feira: foto dos tipos de bancas utilizadas para comercialização de materiais da Sulanca nas ruas da cidade de SCC – Fonte: Guaraci Baldi – ano 2006.

O desenvolvimento urbano da cidade estruturou-se nas relações ideológicas, culturais e econômicas, onde acontecem os processos de trocas e vivências urbanas. O que, como salientou Lamas (1992), constitui um arranjo dinâmico associado ao universo de processos sociais existentes no cotidiano de cada cidade.

Durante décadas de atividade comercial de feira de rua, o ambiente construído do centro da cidade transformou-se para atender à demanda de expansão da atividade comercial, o que gerou uma estrutura urbana complexa. O resultado parece confirmar as observações de Castells e Lefebvre em outras condições de expansão, quando sustentam que o espaço é o produto material da formação sócia e em uma abordagem marxista a partir de processos de ampliação do capital (Gottdiener, 1985), dá subsídios para a compreensão do fenômeno.

3. O espaço saturado e a transferência das funções comerciais do centro antigo.

A expansão da feira foi determinante para a valorização do centro antigo. Embora a cidade seja reconhecida como um fenômeno dinâmico, a transformação efetuada em suas ruas centrais, graças à atividade econômica, apresentou resultados que levaram à saturação desses espaços. Santa Cruz do Capibaribe absorveu essa expansão até o seu limite físico, haja vista o contínuo crescimento da feira.

Na década de 1980 a feira passava por um processo de expansão, tornando-se um fator urbano característico da cidade, e este tipo de comércio se tornou o grande motor econômico de Santa Cruz do Capibaribe, fomentando uma cultura econômica e urbana peculiar que proliferava rapidamente e, em pouco tempo, tomou conta de quase todas as ruas centrais da urbe (XAVIER, 2006).

A cidade vivia a cultura da feira, que se disseminava e ocupava todos os espaços. Este processo envolvia pelo menos 80% de sua população durante os dias da semana nas atividades de confecção, divididas entre a compra de matéria prima e aviamentos trazidos em caminhões estacionados no grande pátio formado pelas ruas centrais da cidade; na produção de roupas em 90% das casas; na organização da feira, e na venda das mercadorias. Cada dia, mais pessoas passavam a participar da atividade de confecção na cidade, pois, como explica Xavier (2006), a produção de roupas era feita nas casas das costureiras e envolvia toda a família neste processo (produção e comercialização da confecção), tornando-se a principal fonte de renda familiar.

Estes fatores foram motivadores para que no final dos anos 1990 os espaços da cidade estivessem ocupados de forma desordenada. A feira ocupava toda a rua e a intensa competição pelo espaço da cidade começava a prejudicar outras atividades comerciais, pois a circulação na região central era impraticável nos dias de feira.

A fotografia a seguir mostra a ocupação da Feira da Sulanca nas ruas da cidade, imagem que perdurou entre o final do ano de 1999 e início dos anos 2000 (Figura 4).

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Figura 3: Vista superior da Feira da Sulanca nas ruas do centro da cidade no final dos anos 1990.  
Fonte: Prefeitura Municipal de Santa Cruz do Capibaribe

Santa Cruz do Capibaribe expandiu-se até o seu limite físico, haja vista que o contínuo crescimento da feira ocasionava graves transtornos no espaço urbano.  Para enfrentar o problema, surgiu a necessidade de requalificação dos espaços centrais da cidade. Sabe-se que para trabalhar com a mudança é preciso apreender os processos que a provocam e capturar os fatores que a condicionam ou a determinam, produzindo conhecimentos sobre os modos como a cidade muda, as regras subjacentes às mudanças e os padrões que emergem de cada situação (PORTUGALI, 2000).

A Feira da Sulanca extrapolava a capacidade morfológica da cidade, o que impunha a necessidade de reorganização do espaço físico e justificava a relocação da feira para um local mais adequado. Um espaço onde a infra-estrutura do comércio de varejo e de grosso e os serviços para escoamento da produção se concentrassem e possibilitassem maior racionalidade dos custos.

Pôde-se perceber um aumento do custo/benefício para os comerciantes da rua a partir da mudança para o novo espaço. Em busca destes benefícios, passou-se a utilizar a infra-estrutura coletiva para o comércio da confecção do cluster 5, melhorando as condições de competitividade e expansão da economia da confecção, através da instalação do centro comercial na periferia denominado de “Moda Center Santa Cruz”.

Em 2006, na véspera da mudança para o novo “Moda Center Santa Cruz”, a feira disputava espaço físico com as lojas instaladas nos prédios que serviam de pontos comerciais para serviços diversos, bancos e outras atividades para a promoção da confecção. A estrutura física e urbana do centro da cidade, não comportava mais a quantidade crescente de transeuntes que circulavam para a comercialização dos produtos, pois se registrava um acréscimo populacional em decorrência dos compradores e sacoleiros da Sulanca – sulanqueiros, de aproximadamente 12.000 pessoas nos três dias da feira, semanal.

Algumas questões estruturais, como estacionamento para o acesso à feira e o escoamento das mercadorias, dificultavam a circulação das pessoas, sem contar que as condições sanitárias eram precárias, pois a difícil circulação e o comércio praticado na rua impossibilitavam os usuários de utilizarem banheiros públicos. Além disso, a limpeza urbana era interrompida na região central da cidade durante os dias de feira.

Com o passar do tempo, a saturação e uso desordenado dos espaços privados e públicos, as dificuldades de circulação e de acesso às vias de tráfego urbano, a falta de sanidade pública, agravaram-se e terminaram por prejudicar o comércio que, gradativamente, foi enfraquecendo, o que levou os comerciantes e os compradores a procurarem novas praças para a satisfação de suas demandas, como por exemplo Caruaru e Toritama.

O Moda Center Santa Cruz” ocupa uma área de 49 mil m2 (Figura 5), num terreno cedido pela prefeitura municipal e construído de forma autofinanciável, isto é, do sistema de venda do imóvel ainda na planta. Os custos da obra, dessa forma, foram rateados entre prefeitura, empresários e feirantes, que acreditaram, investiram no empreendimento e adquiriram boxes e lojas a preço de custo.

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Figura 4: Vista Frontal do “Moda Center Santa Cruz”- Foto de Guaraci Baldi em Dez/2006.

O projeto do “Moda Center Santa Cruz” preserva a proximidade com o cliente, pois proporciona aos usuários livre circulação nos corredores internos. Os 6.200 boxes de alvenaria em medida-padrão estão dispostos horizontalmente em blocos, o que privilegia os feirantes da rua, além de 460 espaços em formato de galeria, destinados às lojas de comércio.  O espaço dispõe de sanitários, praças de alimentação, dormitórios, estacionamentos e todos os serviços que antes eram oferecidos de forma precária e insatisfatória nas ruas da cidade.

O deslocamento da feira das ruas da cidade, em busca de uma melhoria estrutural para a atividade comercial, gerou consequências econômicas e sociais. A partir do momento da transferência da feira para o novo espaço, a população de produtores, comerciantes e prestadores de serviço, viram desvalorizados seus investimentos imobiliários no centro tradicional. A efetivação da mudança provocou efeitos secundários indesejáveis, tais como a relocação de atividades comerciais e de serviços de apoio, o que gerou um esvaziamento do centro urbano, e teve como efeitos diretos sua deterioração e abandono.

Em dezembro de 2009, completaram-se três anos em que a feira da Sulanca passou a funcionar na nova estrutura construída na periferia. Hoje os gestores da cidade continuam a buscar mais investimentos, com novos negócios e projetos de urbanização voltados para a área onde se localiza o “Moda Center Santa Cruz, mas observa-se uma constante perda de  função do centro antigo e desvalorização imobiliária na localidade.

4. Os impactos no centro antigo e a busca pela requalificação

Partimos da hipótese de que as novas centralidades urbanas sofrem, a partir da descentralização de comércio e de serviços, um esvaziamento e uma consequente subutilização do centro antigo, podendo ocorrer o processo de deterioração das antigas estruturas urbanas e sua perda de função econômica e social.

Os relatos sobre as experiências vividas pelas grandes cidades norte-americanas, ao longo do século XX, são unânimes ao descrever o esvaziamento das suas áreas centrais em decorrência da transferência de atividades para outros locais. Com estas mudanças, os centros tradicionais foram perdendo sua característica de centralidade para outras áreas. A partir da década de 1960, autores como Jacobs (2003), se colocavam contra os modelos urbanísticos que teriam provocado tal esvaziamento e pregavam uma recuperação dos usos da rua e dos espaços públicos das grandes cidades.

As cidades por menores que sejam, desenvolvidas ou não, não podem fugir da extrema velocidade das mudanças necessárias decorrentes da modernização da sociedade (JACOBS, 2003), no caso estudado, fica demonstrado que o econômico se reflete no social e necessita do físico para ampliar-se e até parecer em sua forma morfol;ogica com mais vitalidade.

Villaça (2001) aponta aspectos importantes para se analisar a vitalidade de uma cidade: a existência de uma área central mais complexa é atendida por uma maior estrutura, isto é, uma grande quantidade de equipamentos físicos construídos que dão suporte às atividades comerciais e de serviços. Por outro lado, a periferia usufruiria de um número menor de infraestruturas urbanas, diferentemente do que ocorre na cidade de Santa Cruz do Capibaribe, onde na periferia se concentra atualmente o maior foco de comércio, representado pelo Moda Center Santa Cruz.

 Villaça (2001), citando Gottdiener (1985), destaca a noção de centralidade urbana que define assim: “assim, as diversas posições não são iguais na competição espacial - existe uma hierarquia de localizações e a posição central domina essa hierarquia em virtude de se estar no centro. Sem dúvida esse modelo implica que as forças econômicas e políticas requerem centralidade a fim de organizar atividades sociais” (p.32).

Essa definição de centralidade serve para explicar tanto um centro urbano pré-existente como o surgimento de uma nova centralidade na dinâmica resultante do movimento do capital existente no espaço intraurbano. Novas centralidades, assim, podem ser compreendidas como a necessidade que emerge das relações capitalistas de se ocupar outros espaços físicos, promovendo com essa busca transformações na dinâmica e nos fluxos internos desse espaço urbano.

Embora essa explicação defina, para Villaça (2001), o fenômeno do surgimento de novas centralidades urbanas, ela não se justifica conceitualmente, sendo assim paradoxal. No caso de Santa Cruz do Capibaribe, a particularidade do fenômeno é que a nova centralidade foi construída para alocar a atividade econômica básica da cidade, passando a ser o principal centro da cidade, não havendo concorrência com o centro antigo. As atividades básicas são aquelas que dão razão de ser à cidade, comandam o seu desenvolvimento econômico, social e urbano, como afirma a teoria da base econômica (HOYT, 1939, 1954; NORTH, 1955; TIEBOUT, 1956).

Assim constatou-se que a retirada da feira determinou o abandono e subutilização da região central da cidade de Santa Cruz do Capibaribe, tanto do ponto de vista de ocupação física dos espaços, como no ponto de vista da viabilidade econômica, comprovado pela grande quantidade de lojas fechadas na região central da cidade. Pode-se observar o pequeno fluxo de veículos e de transeuntes, como também a pouca movimentação do comércio da cidade. E se constata a perda da função econômica do centro, certa sensação de abandono que se reflete nos relatos dos comerciantes locais e na grande quantidade de imóveis fechados e com placa de alugar.

Os planejadores urbanos apontam que o espaço central será fisicamente reestruturado com reformas e busca de novas saídas para direcionar um maior público ao centro da cidade, fazendo com que se complete o processo de requalificação espacial, entendendo requalificação como um conjunto de políticas de urbanização que se estendem por todas as partes da cidade, como o proposto por Choay (1992).

Assim, compreende-se que a relocação da população de comerciantes e da estrutura comercial para outros espaços da cidade não solucionou a requalificação do espaço. Faz-se necessário, portanto, solucionar as questões do lugar ora esvaziado. O planejamento urbano daquele espaço se apresenta como uma questão a posteriori.

O centro da cidade ficou restrito a lojas de comercialização de matérias primas, de aviamentos para confecção, tecidos e máquinas indispensáveis à produção. Até o momento, ainda não foram estabelecidos novos tipos de comércio que viessem a trazer mais vitalidade e/ou novos tipos de usos para o centro antigo da cidade.

O que mostra que a requalificação do espaço, tanto arquitetônico como comercial, ocorreu numa relação de conflitos de interesses, benéficos para uns e maléficos para outros e não resolveu a questão de uma nova função para o espaço da região central da cidade.

Nesta forma de planejamento urbano não foram privilegiadas, em primeira instância, as questões sociais, políticas e econômicas de forma harmoniosa, a ênfase foi dada para a resolução imediata de uma necessidade de organização do espaço para a comercialização da principal mercadoria do município, a confecção. Embora o Plano Diretor, documento oficial que regulamenta as ações do poder público, proponha perspectivas positivas de mudança que revertam as conseqüências negativas ocorridas na região central da cidade.

5. Considerações finais

A mudança da feira para um novo espaço ocorreu devido à preocupação do poder público e dos comerciantes em promover a melhoria de condições físicas do comércio da cidade em infra-estrutura, com condições básicas de higiene, segurança, circulação, estacionamento e conforto para os comerciantes e compradores vindos de diversas regiões do Brasil.

 Esta nova forma de organização do espaço com melhores condições estruturais levaria os comerciantes a aumentar as vendas, evidenciando-se, portanto, um maior poder de competição em relação a outros mercados e a manutenção da hegemonia no cluster. Estas, então, seriam as previsões do planejamento urbano. Em contrapartida, cerca de 80% dos comerciantes de lojas do centro da cidade, demonstrou desagrado com a relocação da feira das ruas do centro para o “Moda Center Santa Cruz”, pela diminuição da circulação de pessoas na área central, o que refletiu na queda de seu volume de negócios, embora reconhecendo as precárias condições de trabalho antes existentes e todo o desconforto gerado pelo esgotamento da estrutura física da cidade no período em que a feira ocorria nas ruas.

O espaço, agora ocioso do ponto de vista econômico e de sua utilidade física, haja vista a estrutura de seus espaços públicos destruídos pela extrema utilização através da prática da feira de rua, agora também sofre o problema de especulação imobiliária.

Neste sentido, procurou-se examinar a realidade da região visando dar subsídios para a implantação de políticas públicas através da pesquisa e caracterização de novas formas de requalificação do espaço e do uso comum do espaço urbano, nas feiras e no processo de relocação no “Moda Center Santa Cruz”.

A análise dos resultados servirá para resgatar a história de uma produção econômica de iniciativa da população, podendo servir como referência para a implantação de outras atividades produtivas em regiões com cultura ou característica econômicas semelhantes e também como exemplo em processos de requalificação do espaço.

Santa Cruz do Capibaribe pode ser observada como um fenômeno peculiar de crescimento econômico, pois sua requalificação espacial se deu diferentemente do que se observa em outras cidades que passaram por processos parecidos. A especificidade de Santa Cruz do Capibaribe é ser uma localidade do interior e, normalmente, no Nordeste, as cidades interioranas não apresentam problemas no seu espaço morfológico, a não ser que sejam tombadas pelo patrimônio histórico.

  Ainda sobre o planejamento urbano, pode-se dizer que muitas discussões estão no âmbito de projetos, pois efetivamente nenhuma obra de reestruturação ou de requalificação do espaço central teve início até a conclusão deste trabalho.

A cidade é um sistema altamente complexo com variáveis políticas, econômicas, sociais e culturais que não funcionam independentes no planejamento urbano. São partes essenciais e inter-relacionadas que devem ser consideradas e discutidas na busca de soluções para o seu planejamento. No caso de Santa Cruz do Capibaribe, a mudança foi planejada, mas não pôde contemplar todos os caracteres deste sistema, gerando conseqüências importantes para o funcionamento da cidade e que foram amplamente abordadas neste trabalho.

6. Agradecimentos

À CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, que financia esta pesquisa em nível de mestrado, ao Programa de Pós Graduação em Desenvolvimento Urbano – MDU / UFPE e ao NUPECS/ CNPq – Núcleo de Pesquisa em Ciências Sociais da Universidade Federal Rural de Pernambuco pelas parcerias constantes em pesquisas que estão em andamento.

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1 PPGDU/UFPE Email: monicaluizeufrpe@yahoo.com.br.
2 PPGDU/UFPE Email: luis_de_la_mora@hotmail.com
3 PPGDU/UFPE Email: gilka.xavier@gmail.com
4 Sulanca significa helanca vinda do sul. O termo sulanca durante muito tempo ficou conhecido como termo pejorativo de roupa de baixa qualidade, e consequentemente a feira da Sulanca também acompanhou durante muitos anos este estigma, de só ter produtos de baixa qualidade. Atualmente sinônimo de Sulanca é o “Moda Center Santa Cruz” uma espécie de atacado para centenas de pequenos comerciantes de outras cidades, vindos de diversas partes do Brasil.
5 Concentração geográfica de empresas de um mesmo setor de atividade e organizações correlatas – como fornecedores de insumos e serviços, instituições culturais e de ensino, associações de classe – que competem, mas também cooperam entre si. Esta é a definição de cluster, do especialista norte-americano Michael Porter (1998).


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