1.Introdução
Atualmente, o processo de desenvolvimento de novos produtos é considerado um processo de
negócio estratégico para as organizações baseadas em projetos. Trata-se de um
processo estratégico que se reflete diretamente na capacidade de competir e sobreviver em um
cenário dinâmico. Nesse contexto, a capacidade das organizações de melhorar seu
processo de desenvolvimento de produtos (PDP) está ligada à capacidade de aprender com a
própria experiência (Schindler, Eppler, 2003; Wheelwright, Clark, 1992). Sob essa perspectiva, os
diversos projetos já realizados criam uma oportunidade de aprendizado futuro e devem ser tratados como
um recurso para a organização melhorar seus produtos e processos (Anbari, 2008; Cooper, 2007;
Koners, Goffin, 2007; Schindler, Eppler, 2003; Wheelwright, Clark, 1992). Dessa forma, as experiências
obtidas em projetos anteriores é um dos principais recursos de um continuum de aprendizagem
para a organização aperfeiçoar seus processos e criar novos produtos.
As teorias da área de aprendizagem organizacional utilizadas por pesquisadores da área de
projetos fornecem uma base conceitual, mas as definições usadas são genéricas e
limitam as perspectivas para a compreensão das relações existentes entre
indivíduo, projeto e organização, inerentes ao ambiente de desenvolvimento de novos
produtos. O caráter metafórico (Prange, 2001) dessas teorias tem sido uma das críticas
mais frequentes e, nesse sentido, essa percepção é justificada por Senge (2008), segundo
o qual o conceito da “organização que aprende” é uma visão. Assim,
tais conceitos (Argyris, 1999; Fiol, Lyles, 1985; Huber, 1989; Levitt, March, 1988; Kolb, 1997; Nevis et al.
1998; Shaw, Perkins, 1994) auxiliam a estabelecer uma direção, mas, no entanto, não
auxiliam a aprofundar o “como” ocorre a aprendizagem em nível individual e de grupo de
projeto e o “como” elas modificam o sistema de trabalho organizacional.
A consequência direta do caráter generalista das teorias mencionadas é que as pesquisas
conduzidas na área de desenvolvimento de produtos divergem no entendimento do que é a
aprendizagem em um ambiente de projeto. A falta de uma definição mais clara tem prejudicado a
evolução no corpo de conhecimentos relacionado ao projeto, o que dificulta a
identificação de fatores ligados à aprendizagem e restringe a compreensão dos
mecanismos que levam à aprendizagem. Uma identificação mais precisa dos fatores que
alimentam esse processo viabilizaria a construção de novos conceitos e referências em
aprendizagem, o que, por sua vez, auxiliaria no aperfeiçoamento dos próprios modelos de PDP.
Assim, este artigo apresenta um constructo teórico no contexto de desenvolvimento de produtos,
identificando as relações existentes entre o nível individual, o nível de grupo e
o nível organizacional, de modo a caracterizar o “como” ocorre a aprendizagem no ambiente
de projetos. Nesse contexto, o artigo propõe uma nova abordagem para classificar o tipo da aprendizagem
em projetos. Por fim, apresenta-se um estudo de caso realizado na área de desenvolvimento de produtos
de uma empresa multinacional de grande porte do setor de eletrodomésticos para demonstrar a
aplicabilidade da abordagem desenvolvida.
2. Problema de Pesquisa – Aprendizagem no Ambiente de Projetos
O termo “aprendizagem” possui multiplicidade de uso; pode ser utilizado para descrever um
produto, um processo ou uma função. Para os autores da área da psicologia, a
“aprendizagem” e a “evolução” são funções
biológicas de adaptação ao meio ambiente (Pozo, 2004), sendo a aprendizagem o mecanismo
de sobrevivência mais importante para uma espécie. Como função biológica, a
aprendizagem soluciona o problema de adaptação à estrutura dinâmica do ambiente
(Anderson, 2005; Pozo, 2002). Esse conceito biológico tem sido utilizado como a base fundamental no
desenvolvimento das teorias de aprendizagem organizacional, no entanto elas são amplas o bastante para
serem utilizadas prescritivamente. Além disso, não fornecem parâmetros suficientes para
detalhar o “como” as organizações podem aprender com a execução de
seus projetos.
Em um ambiente estável, a “evolução” é o suficiente para selecionar
as características físicas e comportamentais mais favoráveis para a sobrevivência.
No entanto, em um ambiente de incertezas, a aprendizagem é o mecanismo de sobrevivência mais
importante, que permite modificar o comportamento, adaptar-se mais rapidamente às novas
situações e responder aos desafios impostos pela dinâmica do ambiente. Em termos
cognitivos, quando nossa bagagem de conhecimentos não é suficiente para resolver um problema, a
aprendizagem é um processo alternativo que gera modificação nos métodos ou na
manifestação externa do indivíduo. Dessa forma, pode-se identificar as
características que indicam um bom processo de aprendizagem: é uma mudança comportamental
duradoura, é transferível para novas situações e é uma consequência
direta da prática realizada (Anderson, 2005; Pozo, 2002). Assim, a transferência da
experiência adquirida para enfrentar desafios e a capacidade de gerar novos conceitos para solucionar
novos problemas são resultados esperados da aprendizagem.
O estudo realizado por Prange (2001) sobre as principais abordagens de aprendizagem organizacional mostrou
que o conceito é aplicado de forma heterogênea pelos próprios pesquisadores da
área. As principais definições de aprendizagem relacionam os componentes como a
“experiência” e o “conhecimento” que levam à mudança de
“comportamento” da organização. De um modo geral, o acúmulo de
experiências do passado (Kolb, 1997; Nevis et al. 1998) é a base do processo de aprendizagem,
isto é, uma transformação que se inicia a partir de uma “experiência
concreta” (Kolb, 1997, p. 323), codificada em “rotinas que guiam o comportamento” (Levitt,
March, 1988, p. 320) ou em termos de modificação no “escopo do potencial
comportamental” (Huber, 1989, p. 89). A aprendizagem é uma mudança comportamental que
resulta da habilidade de “criar, adquirir e transferir conhecimentos” (Garvin, 2000, p. 54) ou
quando a organização reconhece que o conhecimento adquirido é “potencialmente
útil” (Huber, 1989, p. 89). Embora essas definições sejam úteis para
auxiliar no direcionamento geral, elas são limitadas para auxiliar na compreensão da forma como
é realizada a aprendizagem nas várias dimensões que compõem um ambiente de projeto
e o como se processa a transição entre essas dimensões. No ambiente de projeto,
três sistemas de trabalho operam sistemicamente na aprendizagem: o sistema de trabalho em nível
individual, o sistema de trabalho em nível de grupo de projeto e o sistema de trabalho em nível
organizacional. A ausência dessas dimensões limita as perspectivas para a compreensão das
relações da aprendizagem a partir do nível individual e sua transição para
o nível de grupo de projeto e, depois, para o nível organizacional. A constatação
dessa ausência é significativa, pois impede que seja visualizado como os parâmetros da
dimensão individual, isto é, os componentes cognitivos do projetista, relacionam-se com os
parâmetros que compõem a dimensão organizacional, ou seja, os métodos e os
processos do trabalho do projeto.
Autores como Argyris (1999) e Fiol e Lyles (1985) distinguem a aprendizagem em dois níveis. O
nível mais baixo está relacionado à aprendizagem de rotina, uma repetição
simples de comportamentos passados e associações básicas de comportamentos e resultados,
enquanto o nível mais alto envolve a solução de problemas mais complexos e não
rotineiros. Essa diferenciação dos níveis de aprendizagem é adequada sob o ponto
de vista do PDP, de modo a diferenciar os processos relacionados à resolução de problemas
rotineiros do projeto e os processos relacionados à geração de inovações.
O acúmulo das experiências do passado fornece as bases para o processo de aprendizagem, embora
não seja a única forma de adquirir novos conhecimentos e melhorar o desempenho. A
experiência passada que pode gerar a aprendizagem ocorre quando se consolidam os métodos, ou
seja, quando é incorporada uma nova experiência como resultado de um acerto, isto é,
quando a organização alcança seu objetivo entre o planejado e o resultado obtido, ou como
resultado de um erro que é identificado e corrigido. Em termos de PDP, a “experiência
vivenciada” é o principal parâmetro de aprendizagem, pois a partir dela se pode criar ou
adquirir novos conhecimentos, de modo a modificar seu comportamento ou forma de ação.
A aprendizagem que ocorre no PDP está ligada à formulação de novos
métodos, independentemente da criação de um novo conhecimento. A criação de
novo método indica a ocorrência de uma mudança no potencial comportamental ou no
comportamento manifesto da organização. O aprendizado só ocorre se o método for
aplicado com sucesso “no projeto” e se for compartilhado em nível organizacional, ocorrendo
o que se denomina de aprendizagem “em projetos”. Um aspecto fundamental para que ocorra a
aprendizagem “no projeto” ou “em projetos” é que a formulação de
novos métodos envolve a interação entre as dimensões que atuam no ambiente de
projetos. As dimensões da aprendizagem e as relações entre elas serão detalhadas
na seção a seguir.
3. As Dimensões da Aprendizagem no PDP
3.1 A dimensão individual
A primeira dimensão da aprendizagem em projetos é a cognição do indivíduo
no ambiente organizacional. Em face de uma nova situação do projeto, a tarefa é
compreendida pelo projetista, que percebe, interpreta e utiliza seu sistema cognitivo para executar
determinada ação. Para superar os obstáculos e solucionar um problema de projeto, o
projetista utiliza suas competências por meio de uma estrutura cognitiva articulada mentalmente com os
elementos necessários para a tomada de decisão em determinado contexto. A cognição
envolve elementos como a memória, o raciocínio, a percepção e estratégia de
resolução de problemas e a atenção que o projetista utiliza na
execução de uma tarefa. Na dimensão individual a memória é o principal
componente cognitivo que influencia na aprendizagem.
Em termos individuais a aprendizagem pode ser definida como uma mudança comportamental, interna ou
externa, de forma duradoura, como resultado da experiência (Anderson, 2005). A função da
memória nesse processo é registrar e recuperar as experiências vivenciadas para que a
aprendizagem possa ocorrer. Assim, a aprendizagem depende do funcionamento da memória humana.
O projeto é uma atividade intelectual e criativa, que requer amplo conhecimento em procedimentos e
ferramentas, o que exige do projetista uma base de conhecimentos e de habilidades variadas para solucionar os
problemas de projeto. Quando a complexidade de um problema de projeto extrapola os limites da memória
humana, alguma informação pode ser perdida (Hubka, Eder, 1996) e a formulação de
novas heurísticas deve ser feita. Desse modo, a competência é um atributo do
indivíduo para superar os limites da memória (Marmaras, Pavard, 1999) no desempenho de suas
atividades.
A limitação da memória refere-se, na realidade, às limitações
relacionadas à capacidade de memória de trabalho (MT). A MT possui uma capacidade limitada de
informações que podem ser mantidas e ativadas simultaneamente. Além disso, seus recursos
são divididos para executar uma segunda função cognitiva, isto é, funcionar como
um depósito transitório de informação (Pozo, 2002). Dessa forma, a MT é um
sistema de memória temporário que retém toda a informação que está
sendo operada por uma pessoa em determinado momento, possuindo uma função crucial na
execução de tarefas cognitivas, como raciocínio e aprendizagem (Baddeley, 1997). A
capacidade da MT torna-se crítica para o desempenho cognitivo, pois praticamente tudo o que se
retém passa por esse sistema.
Os componentes que o projetista mobiliza no plano pessoal para a execução das atividades de
projeto compõem o Sistema de Trabalho Pessoal (STP). O projetista interage com outros membros do grupo
e compartilha as experiências na execução de uma tarefa. A aprendizagem em nível
individual pode ocorrer durante a busca de uma solução, que se inicia pela
percepção do novo problema de projeto e que passa pelos ciclos iterativos de
resolução até a explicitação de um método (Figura 1). Essas etapas
caracterizam o processo de aprendizagem individual construída a partir da experiência vivenciada
em projetos.

Figura 1. Etapas gerais das operações cognitivas realizadas em
nível individual pelo projetista
O constructo parte do pressuposto de que o primeiro passo é a percepção da nova
situação-problema por meio de sua competência para captar todas as
informações fornecidas e disponíveis (Figura 2). Esse fenômeno perceptivo ocorre em
nível individual, mesmo que a situação seja discutida e compartilhada na esfera do grupo
de projeto. Num segundo momento, o projetista utiliza sua bagagem adquirida pela experiência vivenciada
para resolver tanto os novos quanto os velhos problemas. A competência é um atributo individual
composto do conjunto de conhecimento empírico, de conhecimento formal e de métodos mobilizados
diante de um problema.
Quando se consegue resolver um novo problema de projeto com o conjunto de conhecimentos, habilidades,
atitudes e modelos mentais já disponíveis, não se caracteriza a ocorrência de uma
mudança comportamental e, portanto, não se requer adaptação ou aprendizagem. Na
realidade, consegue-se resolver o novo problema com métodos e conhecimentos existentes,
caracterizando-se apenas um acúmulo incremental de experiência em termos de solução
de problemas.

Figura 2. Constructo detalhando das operações cognitivas
realizadas pelo projetista
Caso o resultado obtido não seja satisfatório, o indivíduo procura novos
conceitos/conhecimentos, e, normalmente, sua primeira opção é utilizar os mesmos
métodos anteriores consolidados. Caso continue não atendendo, o indivíduo procura gerar
novos métodos, ou seja, é obrigado a mudar o próprio comportamento, pois os anteriores
não são mais suficientes. Quando o resultado obtido pelo “método novo de
agir” é satisfatório, pode-se afirmar que ocorreu a mudança, ou seja, a
aprendizagem em nível individual. A partir desse ponto, o novo método, isto é, o
potencial comportamental, poderá ser transferido em nível de grupo de projeto e em nível
organizacional.
Um novo método que proporcione uma solução satisfatória estabelece o fim de um
ciclo de resolução que caracteriza a aprendizagem individual em termos de potencial
comportamental. Portanto, aqui se pode estabelecer dois indicadores da ocorrência de um bom processo de
aprendizagem individual: o processo gera um novo método/estratégia de abordagem para futuros
problemas; e a nova estratégia é aceita pelo time de projeto. A estratégia individual que
não pode ser compartilhada pelo grupo de projeto ou transferida para novas situações
não se caracteriza como um mecanismo de mudança duradora na forma de agir ante aos novos
problemas de projeto, portanto não caracteriza uma aprendizagem no projeto.
A interação do indivíduo com os membros de um grupo de projeto é o mecanismo mais
eficiente de transferência de comportamentos bem-sucedidos, gerando o que se denomina de
“aprendizagem no projeto”. Esta pode levar a uma aprendizagem maior em nível
organizacional, a aprendizagem em projetos, de modo a permitir transferência para outros projetos da
empresa.
3.2 A dimensão do grupo de projeto e organizacional
No ambiente organizacional a demanda por novos projetos ocorre, em geral, como uma resposta às
pressões de um ambiente competitivo que impõe uma nova situação de desafio
à organização, e ela, por sua vez, responde a esse ambiente lançando um novo
produto ou uma nova tecnologia no mercado. Internamente, além do sistema de trabalho pessoal (STP),
outros dois sistemas de trabalho compõem o ambiente que gera a aprendizagem em projetos: o Sistema de
Trabalho Organizacional (STO) e o Sistema de Trabalho Efetivo (STE), este efetivamente executado no projeto.
Um projetista usa sua competência para resolver um problema, interagindo com outros indivíduos
do grupo dentro dos limites criados pelos fundamentos organizacionais. Os ciclos de otimização
para atender a uma meta do projeto ocorrem por meio da interação social entre os
indivíduos em nível de grupo de projeto. Tais ciclos fazem parte de um processo de
construção da experiência que pode culminar com um ciclo global de aprendizagem (Figura
3).
Em relação à importância da interação social no PDP, pesquisas
mostram que a socialização é o mecanismo mais importante para compartilhar o conhecimento
(Prencipe, Tell, 2001; Silva, Rozenfeld, 2003). O ambiente organizacional em que a interação
ocorre corresponde ao conceito de “Ba” de Erden et al. (2008), ou seja, um espaço
físico, virtual ou mental compartilhado pelo grupo de projeto. Incluem-se nessa categoria os recursos
organizacionais disponíveis para a execução da tarefa, como, por exemplo, os
equipamentos, a infraestrutura e a tecnologia.

Figura 3. Constructo da sequência de operações da
aprendizagem “no projeto” e “em projetos”
Em relação aos fundamentos da dimensão organizacional, as normas e os procedimentos
são alguns dos parâmetros que guiam a forma como o trabalho é realizado dentro da
organização. O conjunto desses parâmetros forma a prescrição do trabalho,
que tem por objetivo coordenar as atividades de trabalho, ou seja, do STO.
A padronização cumpre o objetivo de formalizar o comportamento pela descrição de
tarefas (associado à própria atividade), pelo fluxo de trabalho (especificações do
conteúdo ao trabalho) e por regras (especificações gerais, regulamentos, manuais), de
modo a reduzir a variabilidade e a obter maior previsibilidade dos processos (Mintzberg, 1979). As classes da
fundamentos que cumprem com a função de coordenar e padronizar o comportamento são
mostrados na (Figura 4).

Figura 4. Hierarquia dos parâmetros do STO que podem ser alterados em
função da aprendizagem
Uma aprendizagem provoca uma modificação em alguma classe do STO da organização.
Os fundamentos do STO desdobram-se até o nível de tarefas e atividades que são
compreendidas e apropriadas pelo projetista. Trata-se de um fenômeno que ocorre no plano pessoal (STP) e
que é executado no projeto (STE). Pode-se afirmar que um ciclo de aprendizagem na
organização completa-se quando uma experiência, ou várias experiências,
é compartilhada com os membros do grupo, a qual leva a modificar algum parâmetro de uma classe do
STO da organização (Figura 5).

Figura 5. Constructo da sequência de operações para
aprendizagem “em projetos”
Nesse contexto, a criação de novas normas e de procedimentos internos, ou o
aperfeiçoamento das existentes, deve ser entendida como um dos resultados da aprendizagem. Tanto a
criação de uma nova norma quanto o aperfeiçoamento das existentes são, na
realidade, ajustes nos fundamentos da organização, resultado da experiência de
vários projetos, esse tipo de fenômeno pode ser considerado uma aprendizagem.
3.3. Estrutura Proposta para Caracterizar a Aprendizagem em
Projetos
A nova abordagem proposta para caracterizar a aprendizagem em projetos relaciona o grau de novidade do
conhecimento na organização e a novidade do método para resolver o problema de projeto.
Do constructo da Figura 2, identificam-se quatro categorias que resultam da relação entre a
novidade do método diante de um problema e a novidade do conhecimento requerido para resolvê-lo
(Figura 6).

Figura 6. Síntese das operações cognitivas em
nível individual do constructo apresentado na Figura 2.
A aprendizagem em nível individual ocorre quando se muda o método, isto é, quando se
estabelece um novo comportamento em face de um novo problema de projeto. A aquisição de um novo
conhecimento não implica aprendizagem; ela só gera a aprendizagem quando estiver associada a uma
nova forma de agir. A aprendizagem só ocorre em duas situações: quando se utiliza o novo
conhecimento adquirido por meio da criação de um método aplicável em outras
situações de projeto (Quadrante nº 1); ou quando se transformam os conhecimentos existentes
em novos comportamentos, isto é, remodelam-se os velhos princípios gerando um novo comportamento
(Quadrante nº 2).
Na combinação de métodos existentes com um novo conhecimento ocorre uma
evolução nas rotinas, ou seja, uma “adaptação evolutiva” (Quadrante
nº 3). Por fim, a combinação de métodos e conhecimentos existentes,
situação em que não há um agregado novo, trata-se apenas de um reforço nos
comportamentos existentes (Quadrante nº 4).
Tomando por base a Figura 6 para a análise da aprendizagem em nível individual, pode-se
expandir o raciocínio englobando o nível de grupo de projeto e o nível organizacional. A
Figura 7 apresenta as possibilidades de aprendizagem e sua classificação nos três
níveis.
A partir dessa classificação pode-se determinar e caracterizar o tipo de aprendizagem que
ocorreu no contexto do PDP. Para isso, deve-se caracterizar o nível de conhecimento exigido quando da
execução de um novo projeto a ser desenvolvido pela organização, bem como
constatar alterações nos procedimentos realizados nas etapas do projeto.
A verificação do grau de conhecimento requerido é feita observando-se os níveis
individuais (STP) e de grupo de projeto (STE). Para isso, definem-se os seguintes indicadores do nível
de conhecimento:
- nº de novos princípios/conceitos trazidos individualmente;
- nº de novos princípios/conceitos trazidos pelo grupo; e
- quantidade de normas específicas novas trazidas para o grupo de projeto.

Figura 7. Classificação do tipo de aprendizagem nos diversos
Agora, para a identificação de alterações comportamentais em nível de
método de projeto, utilizam-se os seguintes indicadores:
- nº de novos métodos/estratégias individuais criados individualmente e compartilhados e
aceitos no grupo de projeto; e
- nº de novos métodos/estratégias criados nos grupos de projeto.
Uma vez levantados esses indicadores, pode-se determinar se houve ou não aprendizagem em nível
organizacional, ou apenas em níveis grupal ou individual, respeitando o disposto na Figura 3. Para o
caso organizacional, utiliza-se o seguinte indicador:
- nº de novos métodos/estratégias criados nos grupos de projeto e transferidos em
nível organizacional, que se traduzem em:
- novos processos para as fases/etapas do PDP;
- novas normas criadas para a organização;
- novos valores ou princípios organizacionais;
- novas estratégias organizacionais; e
- novos pressupostos organizacionais.
A seguir é apresentada a metodologia de pesquisa utilizada para caracterizar a aprendizagem em
projetos por meio da estrutura de indicadores proposta nesta seção.
4. Metodologia de Pesquisa
A aprendizagem no PDP é um tema relevante e contemporâneo que ainda possui lacunas
teóricas relacionadas à transferência de aprendizagem entre os projetos. Uma das lacunas
identificadas está relacionada à falta de um modelo que auxilie na compreensão de como
ocorre a aprendizagem em um ambiente de projeto. Inicialmente, realizou-se uma pesquisa bibliográfica
com o objetivo de elaborar um modelo teórico e um constructo da aprendizagem de um ambiente de
projetos.
Esta pesquisa é exploratória por sua natureza e objetiva responder algumas das perguntas de
pesquisa sobre “como ocorre o aprendizado dentro das equipes de projeto” e “como ocorre a
transferência da aprendizagem obtida em nível de projeto para o nível
organizacional”. Dessa forma, o método de pesquisa adotado foi o do estudo de caso, pois é
apropriado para o propósito de se avaliar “como” (YIN, 2010) ocorre a aprendizagem em
organizações técnicas. A pesquisa foi desenvolvida na situação real de
projeto, avaliando-se o fenômeno da aprendizagem dentro dos projetos. A fonte de dados e os dados
coletados estão listados na Figura 8.

Figura 8. Fonte e os dados coletados no estudo de caso
Para o estudo de caso foi selecionado um projeto de grande porte, conforme a classificação da
organização em termos de número de pessoas envolvidas, o investimento requerido e o grau
de dificuldade técnica. Além do critério utilizado pela organização, um
critério adicional foi aplicado para a seleção do projeto: o grau de novidade
técnica introduzido pelo projeto em relação à outros projetos do mesmo porte.
5. Estudo Empírico
O estudo de caso foi realizado no processo de desenvolvimento de produtos de uma indústria sediada no
Brasil que fabrica refrigeradores, freezers, fogões, lavadoras de roupa, responsável
pelo desenvolvimento desses produtos em países da América do Sul, da América Central e do
Caribe.
A pesquisa foi realizada na área de Tecnologia de Produtos de Refrigeração,
responsável pelo ciclo do desenvolvimento de produtos e pela liderança dos projetos. O PDP
é considerado o processo mais importante e a linha central de todas as estratégias da
organização. Os produtos são desenvolvidos por meio de grupos de engenharia
simultânea e iniciam-se com a oficialização de grupos multidisciplinares.
A organização classifica seus novos projetos de acordo com o grau de mudança
tecnológica, o grau de novidade da plataforma, o número de produtos, o valor do investimento
requerido e os mercados (regional ou global) em termos de Mega, Major e Minor. No PDP,
destaca-se a importância das fases iniciais do projeto, principalmente a fase de desenvolvimento do
conceito, pois as decisões que geram a concepção do produto têm grande
influência nas fases subsequentes do projeto. Nessa fase é onde se concentra o maior volume de
conhecimentos exigidos pela equipe.
Na seção a seguir é feita uma análise detalhada do projeto, utilizando os
indicadores de nível de conhecimento e alteração de método para classificar o tipo
de aprendizado.
5.1 Caracterização da aprendizagem no projeto
O novo produto desenvolvido contempla um sistema com purificação de água e um
dispensador acionado eletronicamente, onde a água é alimentada diretamente pela rede
doméstica. Esse seria o primeiro modelo da categoria a utilizar tal sistema no Brasil (Figura 9).

Figura 9. Visão dos principais componentes do novo refrigerador
desenvolvido.
A falta de experiência da engenharia era relacionada tanto à adaptação do sistema
de alimentação de água quanto em relação aos requisitos encontrados nas
residências brasileiras. Inicialmente, o grupo de projeto optou pela adoção de um novo
tanque plástico, idealizado pela Engenharia de Desenvolvimento (ED), sendo considerado o mais
apropriado para as dimensões internas do refrigerador. A solução inicial do tanque foi
desenvolvida pelo projetista da ED disponibilizando conceito para o grupo de projeto.
No grupo de projeto os requisitos reais do campo, e não apenas os requisitos normativos, dirigiram o
dimensionamento do sistema, de modo a garantir a conformidade do desempenho, considerando a variabilidade das
residências. Relacionado ao dimensionamento do tanque, conhecer os requisitos normativos da rede,
principalmente os relacionados à pressão de operação mínima e
máxima, foi o primeiro passo adotado, seguido pela busca de informações sobre a
pressão real de abastecimento das residências. Depois, as informações relacionadas
à qualidade da água nortearam o projeto. Essa situação de projeto ilustra a
procura de referências no STO, por experiências anteriores da organização que
auxiliassem no dimensionamento do sistema.
O projetista de posse da referência normativa, a norma brasileira regulamentadora ABNT NBR 14908
aplicável a aparelhos de melhoria da qualidade da água para uso doméstico, e de outras
informações tècnicas da matriz norte-americana, iniciou-se o desenvolvimento do conceito
do produto. O projetista, nessa etapa, utiliza sua competência na criação, resolvendo o
problema do dimensionamento do tanque e o da limitação do espaço interno, compartilhando
isso com os demais membros do grupo em eventos formais e informais. Nesses eventos são feitos novos
ajustes e identificadas novas restrições, num processo cíclico de
otimização da solução. Tais ciclos, de resolução e de
otimização, desde o nível cognitivo individual até o compartilhamento em
nível de grupo, que gera um novo método caracteriza conceitualmente a aprendizagem ocorrida
“no projeto”.
As frequentes dificuldades encontradas na concepção do sistema como um todo – não
somente na concepção do novo reservatório, mas também na redefinição
do circuito da tubulação – levaram ao projeto de um novo tipo de dobradiça para que
a tubulação de água pudesse chegar ao dispensador, localizado na porta, sem
prejuízo à temperatura da água.
O primeiro e principal obstáculo do projeto foi a definição do tipo de tanque a ser
utilizado. As avaliações realizadas inicialmente com o tanque plástico, em termos de
atendimento aos requisitos normativos e aos requisitos dos consumidores, evidenciaram falhas graves de
concepção. As modificações no reservatório, necessárias para
adequar-se aos requisitos, não atenderiam à data de lançamento do produto. O conceito do
tanque plástico foi então abandonado e substituído pelo tanque em espiral, utilizado pela
matriz norte-americana.
As dificuldades decorrentes da falta de experiência com esse tipo de sistema manifestaram-se desde a
concepção do produto até o início da fabricação. As incertezas
iniciais, como a definição de critérios técnicos para o produto, os
critérios para guiar os testes de desenvolvimento e os testes de aprovação, foram sendo
superadas no decorrer do projeto. Houve uma busca de normas externas e internas, consulta aos fornecedores
especializados, e como resultado dessa investigação foram criados novos métodos e
procedimentos para aplicação no projeto. Pode-se categorizar o projeto em termos de indicadores
de conhecimento e de método, expostos na Figura 10 e Figura 11 respectivamente.

Figura 10. Indicadores de conhecimento extraídos do projeto
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Figura 11. Indicadores de método extraídos do projeto
O conceito inicial do tanque plástico, abandonado pela dificuldade técnica de atender aos
requisitos de referência estabelecidos, contribuiu para a aprendizagem em nível de grupo gerando
vários métodos novos de seleção do conceito durante o processo de busca por uma
solução (Figuras 12). Considera-se que a “organização aprendeu” com
este projeto, a partir do desenvolvimento do sistema novo, porque foi fechado pelo menos um ciclo global de
aprendizagem, incorporando ao STO uma nova norma, a ABNT NBR 14908. A Figura 12 mostra a
classificação da aprendizagem nos três níveis a partir do conhecimento novo no
projeto.

Figura 12. Classificação da aprendizagem em termos de
conhecimento novo
A Figura 13 mostra que não houve aprendizagem em nenhum nível a partir de conhecimentos
disponíveis, pois não foi gerado nenhum método novo.
Deve ser mencionado que vários métodos novos criados durante o desenvolvimento ficaram
restritos aos membros do grupo de projeto, ocorrendo a aprendizagem “no projeto”, sem que houvesse
a “aprendizagem em projetos” na mesma proporção. Vários métodos
importantes que direcionaram o projeto e que determinaram a concepção final do produto
não estão explícitos nos relatórios padronizados de testes, pois não
conseguem mostrar adequadamente a avaliação/resultados da nova concepção. Assim,
com a finalização do projeto e a dissolução do grupo, compartilhar os novos
conhecimentos e métodos adquiridos neste projeto só será possível por meio da
socialização dos membros da equipe com outros indivíduos da empresa, o que
dependerá de encontros informais/casuais ou da promoção de outros mecanismos formais de
socialização por parte da organização.

Figura 13. Classificação da aprendizagem em termos de
conhecimento velho
6. Conclusão
A importância da aprendizagem está diretamente associada à dimensão da
competição que cerca as organizações que desenvolvem projetos. A
sobrevivência nesse ambiente depende do desenvolvimento dos mecanismos de adaptação a esse
meio, e o mecanismo mais importante é a aprendizagem. Apesar das teorias da aprendizagem organizacional
estabelecer a base conceitual, a falta de foco tem restringido a sua utilização na área
de projetos principalmente quanto à forma de caracterizar a aprendizagem que ocorre nesse ambiente.
Dessa forma, este trabalho contribui para demonstrar que aprendizagem só se caracteriza quando se
formula um novo método e quando esse método é aplicado com sucesso, sendo o patamar que
estabelece uma mudança comportamental.
Este trabalho mostrou a aplicabilidade da estrutura proposta para classificar o tipo de aprendizagem e a
validade do constructo teórico desenvolvido relacionando as dimensões atuantes no PDP. O
constructo auxilia a esclarecer o processo que leva ao acúmulo de experiências no projeto a
partir do nível individual e como eles podem conduzir até a aprendizagem em nível
organizacional, isto é, a aprendizagem entre os projetos.
O desenvolvimento da estrutura para a caracterização do tipo da aprendizagem foi
possível mediante a identificação das dimensões envolvidas nesse processo e o
detalhamento da forma como essas dimensões interagem para gerar a aprendizagem. Compreender melhor a
aprendizagem no ambiente de projetos permitirá desenvolver novas referências teóricas,
especialmente na formulação de estratégias organizacionais que podem ser desenvolvidas a
partir da aprendizagem. Uma implicação mais imediata deste trabalho está na possibilidade
de utilizar a estrutura proposta como uma ferramenta para diagnosticar a competência organizacional para
desenvolver novos produtos em função da capacidade de gerar a aprendizagem em suas três
dimensões.
Referências
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management competence”, Technovation, 28, 633-643.
Anderson, J.R. (2005); Aprendizagem e memória: uma abordagem integrada; Rio de Janeiro, LTC, 327 p.
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Baddeley, A. (1997); Human memory: theory and practice; East Sussex, UK; Psychology Press, 423 p.
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Proceedings of the 40th Hawaii International Conference on System Sciences.
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