1. Introdução
O Sistema Toyota de Produção (STP), também conhecido por Lean Manufacturing ou
Manufatura Enxuta, teve seu desenvolvimento no Japão a partir de 1945 quando a Toyota Motor Company
estabeleceu o objetivo de “alcançar” as empresas concorrentes da indústria
automobilística americana (OHNO, 1997). Porém, a Toyota entendia claramente que
“alcançar” os rivais através das mesmas técnicas já consolidadas na
indústria americana não seria possível. Era necessário criar um novo sistema de
produção que gerador de vantagem competitiva capaz de atender à baixa e variada demanda
por automóveis no Japão Pós Segunda Guerra. Para que este modelo fosse competitivo, o STP
se concentrou na eliminação de perdas geradas no sistema produtivo (ANTUNES et al., 2008).
Entretanto, em 1973, em decorrência da crise do petróleo, o segmento automotivo global passou a
enfrentar um novo paradigma: a capacidade produtiva instalada se tornou maior que a demanda. Nesse ambiente de
recessão, a Toyota passou a se destacar pelos seus resultados econômicos acima da média
dos obtidos pelas concorrentes americanas. Porém, somente a partir de 1990, ao final dos estudos
coordenados por James Womack no International Motor Vehicle Program (MIT), consolidados no livro
The Machine that Changed the World em 1992, que os princípios do STP foram amplamente
divulgados no ocidente (ARKADER, 1998).
Na visão de Arkader (1998) uma das dimensões mais relevantes do JIT é a
relação entre fornecedores e clientes no que tange o fornecimento enxuto gerando necessidades
por adaptações de ambas as partes. O sistema JIT estabelece basicamente uma política de
abastecimento e o mesmo deve ser absorvido tanto nos processos produtivos internos da empresa cliente como em
suas relações de compras e entregas com seus fornecedores externos. Nesse sentido, compreender a
percepção de empresas fornecedoras como de empresas clientes em relação ao regime
de entregas JIT é o objetivo deste trabalho.
Para conduzir a investigação essa pesquisa realizou duas entrevistas: uma com empresa
fornecedora e uma entrevista com empresa cliente que interagem com o regime de entrega JIT. A empresa cliente
é um grande player do setor de implementos agrícolas. A empresa fornecedora está
no setor de embalagens de papelão ondulado. Para estruturar a discussão, esse artigo está
estruturado em quatro seções. A seção dois faz uma objetiva revisão da
literatura sobre logística enxuta e o JIT. A seção três, apresenta a metodologia de
pesquisa e o resultado das entrevistas realizadas. A seção quatro faz a discussão dos
resultados e na seção cinco são feitas as conclusões.
2. Relação entre clientes e fornecedores na logística
enxuta
Este artigo está motivado pelas pesquisas desenvolvidas por Fleury e Arkader (1995; 1996) que
analisaram as percepções de clientes e fornecedores da indústria automobilística
brasileira em relação ao fornecimento enxuto. O primeiro artigo de Fleury e Arkader (1995)
objetivou identificar os problemas e benefícios do fornecimento enxuto. Nesse estudo, três
montadoras e nove fornecedores foram entrevistados e a síntese dos resultados encontra-se no Quadro 1:

Quadro 1 – Benefícios apontados pelas montadoras. Fonte: Fleury e
Arkader (1995).
Percebe-se que a montadora A enumerou a maior quantidade de benefícios entre as três montadoras
analisadas. Isto se deve pelo fato de que esta montadora estava num estágio mais avançado na
implantação de conceitos e ferramentas da produção enxuta que as outras duas
empresas (ARKADER, 1998). As montadoras também foram motivadas a relatar os aspectos negativos do
fornecimento enxuto conforme sintetizado no Quadro 2:

Quadro 2 – Benefícios apontados pelas montadoras. Fonte: Fleury e
Arkader (1995).
Por parte dos fornecedores, a percepção geral foi tida como positiva concluindo-se que este
grupo entendia a necessidade por adaptação ao novo sistema assim como percebiam oportunidades
para a implantação do STP em suas plantas produtivas. Porém alguns problemas foram
citados de forma recorrente: como as freqüentes alterações do mix de produtos dos clientes,
custos de estoques e o atendimento a diferentes sistemas de qualidade entre os clientes.
A segunda pesquisa de Arkader, realizada em 1996, também teve enfoque na relação entre
fornecedores e clientes do setor automobilístico, porém priorizando a perspectiva dos
fornecedores. Este estudo objetivou compreender se haveria a percepção de que uma
“parceria” estava sendo criada entre clientes e fornecedores. Nove fornecedores, tidos como de
primeiro nível, foram avaliados e todos estavam em fase de implementação de
práticas da produção enxuta em suas operações internas. As principais
conclusões encontradas foram: i) alto nível de intransigência por parte das empresas
compradoras estabelecendo uma relação ganha-perde com seus fornecedores.
Não existia o entendimento de que parcerias estavam sendo criadas entre os atores; ii) a
pressão por redução de custos era muito forte sendo percebido que vetor econômico
era o mais determinante; iii) havia uma tendência de relacionamentos comerciais de longo prazo apesar de
muitos fornecedores não terem qualquer garantia contratual ou até mesmo contratos que
determinassem as regras do jogo; iv) havia uma tendência acentuada por localizar as unidades fabris
próximas aos complexos produtivos dos clientes; v) percebeu-se uma redução no
número de fornecedores apesar de algumas montadoras ainda tentarem evitar maior dependência; vi)
mais apoio técnico estava sendo ministrado aos fornecedores; vii) um maior volume de
informação trocada entre os atores era percebida, mas não necessariamente relacionada a
melhor qualidade; viii) melhorias em termos de feedback por parte das montadoras, porém, baixo
envolvimento para se solucionar
Quanto às barreiras para a implantação do efetivo fornecimento enxuto, a pesquisadora
pode constatar dificuldades em três níveis: barreiras nacionais, barreiras regionais e barreiras
organizacionais. Dentre essas se destacaram: deficiências nas áreas de logística e de
comunicações, distorções fiscais, dificuldades na obtenção de
financiamentos para adequação estrutural, baixos volumes e o câmbio. Por exemplo, as
barreiras organizacionais mencionadas pelos fornecedores foram: alto nível de burocracia por parte das
montadoras, a falta de comunicação interna entre as diferentes áreas técnicas de
seus clientes, a perda de autonomia de compradores para a definição de fornecedores e as bases
de fornecimento.
Entre os dois estudos é possível verificar a diferença entre as percepções
de compradores (mais otimistas) e fornecedores (menos otimistas) quanto aos avanços nos relacionamentos
comerciais com base no fornecimento enxuto (ARKADER, 1999). Portanto pode-se concluir que, naquela
época, a implantação da produção enxuta nas montadoras brasileiras estava
gerando forte desconforto, oportunidades e desafios aos seus fornecedores alterando consideravelmente os
princípios das relações entre os atores. E uma avaliação da atual dessas
relações, conforme proposto nesse artigo, se faz relevante.
É importante destacar que os princípios da manufatura enxuta objetivam a redução
de desperdício por toda a cadeia de suprimentos (ARKADER, 1999). Porém alcançar estoque
zero em todos os atores desta cadeia parece ser algo impossível segundo Fromm & Na (2005). Em 2000,
o Sloan Management Review Fall 2000, publicou o artigo “Japanese Automakers, U.S. Suppliers
and Supply-Chain Superiority” escrito por Jeffery K. Liker and Yen Chu-Wu. Este artigo analisou
indicadores de performance assim como a percepção de 91 fornecedores que atendiam montadoras
japonesas e americanas com plantas produtivas nos Estados Unidos.
O artigo identificou superioridade de desempenho em todos os indicadores operacionais dos fornecedores em
relação as suas atividades junto às montadoras japonesas quando comparadas as suas
atividades junto às montadoras americanas. Indicadores como: giro de estoque, tempo de armazenamento de
produto de final, redução de custos em relação ao ano anterior, entregas de
emergência, dentre outros, foram analisados. Por consequência, o artigo identificou as
razões para tal diferença de desempenho: i) as montadoras japonesas compreendem que o elo mais
fraco da cadeia deve ser fortalecido, portanto, existe uma consciência forte em relação a
importância do desenvolvimento de fornecedores com base nos princípios do Lean Manufacturing.
Destaca-se que os japoneses não dão grande valor para os treinamentos realizados nos
“conference rooms” e que preferencialmente os desenvolvimentos são realizados no
chão de fábrica do fornecedor; ii) outro destaque é a importância que as montadoras
japonesas designam para o nivelamento de produção através de uma
distribuição e definição equilibrada de itens a serem produzidos. Esta iniciativa
afeta a capacidade de programação de produção de seus fornecedores visto que a
variabilidade na demanda é minimizada pela própria montadora; iii) a qualidade é
essencial para o bom andamento do JIT.
Não foi identificada grande diferença entre a qualidade de peças entregues às
montadoras japonesas e americanas, porém observou-se que os fornecedores tinham menor custo com reparos
e menor quantidade de itens defeituosos de peças para as montadoras japonesas; iv) as montadoras
americanas impõem penalidades severas quando os caminhões chegam dos fornecedores com carga
parcial, ou seja, não enchem o caminhão com peças. Já as montadoras japonesas,
aplicando os princípios do fornecimento enxuto, focalizam receber a quantidade necessária no
momento necessário. Para tanto é relevante o desenvolvimento das operações
logísticas entre montadoras e fornecedores.
Nos Estados Unidos, uma dificuldade amplamente anunciada como uma barreira para a implantação
do STP era a grande distância geográfica entre fornecedores e montadoras. A Toyota solucionou
este problema criando centros logísticos para se operar a técnica de cross-docking.
Assim pequenas cargas são consolidadas em poucos operadores logísticos que assim entregam
cargas completas à montadora; neste estudo ficou evidente a necessidade da construção de
uma parceria entre empresas clientes e fornecedoras. O melhor desempenho econômico das montadoras
japonesas em relação às montadoras americanas parece estar relacionado com o melhor
desempenho de seus fornecedores.
A partir dos trabalhos analisados, podemos concluir que a relação entre fornecedores e clientes
com base em um sistema enxuto de fornecimento contém as seguintes características, as quais
serão avaliadas se estão presentes ou não nas empresas entrevistadas nesse artigo:
- Todos os participantes da cadeia de suprimentos deveriam adotar os princípios do STP sendo que
empresas clientes que adotam o JIT deveriam ajudar desenvolver seus fornecedores neste sentido;
- As empresas fornecedoras deveriam estar envolvidas no desenvolvimento de melhorias e novos produtos da
empresa cliente;
- As empresas clientes devem buscar equilibrar o mix e o nível de suas produções
evitando variações constantes na demanda;
- O princípio de se fornecer a peça correta, na quantidade correta no exato momento em que ela
é necessária deveria prevalecer no sentido de orientar as atividades logísticas entre
fornecedores e clientes;
- Relacionamentos de longo prazo com uma base menor de fornecedores é fortemente sugerida;
- O estabelecimento de contratos que definam claramente os deveres e direitos de cada ator;
- Processo de melhoria contínua tanto em processos como na qualidade dos produtos deve fazer parte do
cenário de fornecedores e clientes – esta visão deve garantir o diferencial competitivo
da cadeia como um todo;
- A troca intensa de informação entre as partes deve ter qualidade;
- Para sobreviver como fornecedor em sistema enxuto de fornecimento, a qualidade dos produtos deve atingir
zero defeito.
3. Metodologia
Este trabalho adota a pesquisa qualitativa, usando com instrumento uma pesquisa estruturada para verificar a
percepção de empresas clientes que utilizam o sistema de fornecimento enxuto assim como
fornecedores que operam entregas neste sistema. É usado a técnica do estudo de caso (YIN, 2010)
no segmento metal-mecânico para conduzir a investigação. A análise de
conteúdo das respostas foi realizada segundo Bardin (2002). As perguntas formuladas foram baseadas na
pesquisa realizada por Arkader (1999). Espera-se assim, fazer uma análise comparativa entre os
resultados em dois setores produtivos distintos. As empresas analisadas não têm
relação comercial direta e por motivos de confidencialidade o nome das empresas é
omitido. A primeira entrevista foi realizada com o gestor da área de logística de um fornecedor
enxuto (Empresa AA). Essa empresa beneficia chapas de papelão ondulado transformando-as em embalagens
de papelão para diversos clientes e segmentos do setor industrial. A grande maioria de seus
concorrentes tem mesmo porte ou porte menor e seu setor é altamente fragmentado, acirrando assim a
competição por preços. A segunda entrevista foi realizada com uma empresa da
indústria de implementos agrícolas localizada no Brasil. Desta entrevista participaram
simultaneamente a supervisora de planejamento de produção e a supervisor de compras de materiais
diretos. Esta empresa será chamada de BB.
4. Apresentação da cadeia de suprimentos analisada e
discussão dos resultados
Apesar dos produtos da Empresa AA serem essenciais para a expedição dos produtos de seus
clientes, ainda são considerados itens indiretos pela maioria das empresas clientes que concentram suas
atenções nos produtos/insumos de maior impacto econômico na composição dos
custos de seus produtos finais. Do ponto de vista das grandes papeleiras (fornecedores da AA), a mesma
é uma empresa que demanda volumes médios, não sendo considerado um cliente de alta
relevância. Assim sendo AA opera adequando-se as exigências de altos volumes de compras impostas
por seus fornecedores e à uma tendência cada vez maior de administrar os estoques de produtos
acabados (embalagens) para seus clientes.
Para se manter competitiva neste mercado, a empresa AA tem optado pela estratégia de
diferenciação, buscando a melhoria contínua da qualidade de seus produtos e
serviços. A certificação da ISO 9000 ainda hoje é um ativo diferenciado que a
Empresa tem para conquistar novos clientes, cada vez mais exigentes. Além disto, a empresa tem buscado
oportunidades de negócios em clientes que adotem integral ou parcialmente o sistema JIT em suas
operações de suprimentos entendendo que com estes clientes o relacionamento comercial pode ser
contínuo por mais tempo. É válido destacar que o mercado de embalagens é altamente
correlacionado com o desempenho da economia como um todo. Momentos de baixa demanda, como ocorrido na crise
financeira global de 2008, podem sinalizar oportunidades no processo de compra de matéria-prima,
porém, dificuldades em vender para seus clientes. A seguir serão apresentados os resultados da
entrevista feita na empresa AA.
- Quantos clientes da AA atualmente compram no sistema Just in Time? A empresa possui 9 clientes
que se utilizam do sistema JIT para definir sua política de recebimento de insumos. No total a AA tem
116 clientes.
- As vendas mensais para estes clientes representam quanto do faturamento total desta Unidade fabril?
As vendas mensais para os 9 clientes JIT correspondem a 49% do faturamento total da empresa.
(média dos últimos 12 meses). Importante destacar que destes 49% de vendas, 30% correspondem a
itens de alto giro que a empresa mantém estoques de reserva para diminuir o risco de falhas na
entrega. Quanto maior a quantidade de itens que o cliente tem, maior deve ser o estoque reserva no
fornecedor.
- Como é definido o plano de produção para cada cliente? Um dos clientes
não fornece programação mensal de puxada, porém utiliza-se do sistema de EDI
para informar a necessidade de itens com 24 horas de antecedência. Como a variação nas
demandas é muito alta, AA determina as quantidades necessárias a serem produzidas com vistas
na média de consumo de cada item e o estoque de produto final existente. A decisão do que
produzir ainda está sob a responsabilidade da AA que monitora as quantidades em estoque, a
média de vendas por item nos últimos 3 meses e determina então a quantidade a produzir
e estocar. Nos itens de menor giro a empresa produz quando o cliente sinaliza a necessidade (através
do EDI). A empresa optou por criar um terceiro turno (noite) para produzir estes pedidos
“emergenciais”. Outros dois clientes passam previsão mensal e a puxada diária
é determinada por e-mail. Um destes clientes determina no dia de recebimentos que itens necessitam
receber. O restante tem seus volumes definidos pela média de compra mensal que a AA monitora.
- Quantas entregas são feitas diariamente para cada cliente? Uma para cada cliente.
- Que percentual do estoque total é destinado a estes clientes ao final do mês? Quantos
dias de vendas em média a AA têm de estoque para atender estes clientes? O Estoque
médio da empresa é de 7 dias e é composto em 100% de itens para atender clientes JIT.
- No seu ponto de vista o que seria necessário para reduzir o seu estoque? Uma
Aproximação com o fornecedor. Foi destacada a dificuldade em se conseguir agenda com os
compradores para discutir as diferenças entre as previsões e as compras efetivas. A
análise da AA quanto a este “desinteresse” se dá pelo baixo valor que o seu
produto representa no valor total do produto do cliente – muitas vezes determinado como material
indireto pela área de compras. Esta talvez não seja a característica de relacionamento
com fornecedores de itens diretos de maior relevância na composição do produto final do
cliente. Ainda quanto ao estreitamento no relacionamento com o cliente, a AA destaca o papel do consultor de
vendas que deve acompanhar o desempenho de seus clientes para se manter informada e capacitada a reprogramar
suas produções de acordo com as variações observadas. Qualidade de
Informação. AA ressalta a falta de qualidade nas previsões dos clientes destacando a
dificuldade que os mesmos tem para mensurar até mesmo as tendências de demanda a curto prazo em
seus setores. Esta baixa qualidade de previsão afeta tanto o mix de produtos quanto os volumes a
serem produzidos. Porém, a empresa avalia que a diminuição de estoques poderia causar
duas situações indesejadas: i) aumento de turnos de trabalho para atender as
requisições. Uma vez que, a maioria das requisições diárias via JIT
são feitas com 24 horas de antecedência, a empresa enfrentaria muitas dificuldades em produzir
de um dia para o outro todos os itens requisitados pelo curto espaço de tempo disponível para
a produção; ii) falta de capacidade para atender os picos de demanda que eventualmente possam
ocorrer. AA ainda ressalta que o tempo de setup de máquinas ainda é muito alto o que dificulta
atender uma maior variação de itens produzidos por dia.
- Existe muita divergência entre a previsão do cliente e seu consumo real?
Existe, o cliente não fornece uma previsão/programação consistente de
necessidades.
- Existem muitos pedidos de última hora? Sim. E isto atrapalha a programação
de produção e reduz a produtividade da fábrica como um todo.
- Qual o ritmo de inovação dos clientes?Não há um ritmo de
inovação intenso.
- Quais são as vantagens em atender um cliente que utiliza o sistema JIT? Na visão da
AA, após o estabelecimento de fornecimento com base no JIT o cliente não troca seus
fornecedores da noite para o dia. Isto gera um certo grau de segurança para a AA quanto a demanda no
médio e longo prazos.Este maior grau de fidelidade permite a Empresa programar melhor suas
necessidades de compra de matéria-prima assim como o histórico de vendas permite a empresa
programar melhor a sua produção. Assim a empresa aumenta a produtividade e consegue concentrar
um maior poder de compra junto a seus fornecedores. Melhora a previsão de compras e qualidade da
compra. Foi comentado também que com o JIT é possível eliminar algumas
ociosidades dentro da fábrica quando o mercado está em baixa e a necessidade de focar
esforços na redução de setups.
- Quais são as desvantagens em atender um cliente que utiliza o JIT? A empresa AA evidenciou
a menor liquidez devido ao elevado custo com estoques; o risco de obsolescência dos produtos acabados
dado à interrupção abrupta de demanda e pela variabilidade da mesma; a perda de
características técnicas pois o produto, neste caso, é perecível; o custo com
espaço físico; a figura do Comprador ainda estabelece, em alguns casos, um relacionamento do
tipo Empresa & Comprador e não Empresa & Cliente. A empresa ainda observa que existe no
mercado como um todo, uma forte tendência entre grandes e médios clientes em adotar um sistema
JIT em suas atividades de suprimentos.
Outra característica importante da relação da empresa com seus clientes JIT refere-se
à ausência de contratos que definam claramente as responsabilidades de ambas as partes. Esta
situação traz risco potencial para a AA quanto a responsabilidade por estoques não
demandados devido a descontinuidade de itens , por perdas de estoque final pela deterioração do
mesmo e por não conseguir repassar custos aos clientes quando os fornecedores aumentam os preços
da matéria-prima. Percebido isto, a empresa tem na gestão dos estoques de produtos acabados de
seus clientes JIT uma de suas atividades prioritárias.
A empresa AA ainda comenta que as relações comerciais ainda estão mais para
Empresa/Comprador que Empresa/Cliente. As relações são ainda perturbadas quando o cliente
troca o comprador que passa a determinar novas prioridades. No sentido de parceria a empresa entende que ainda
há muito a desenvolver. A empresa presta serviços de dimensionamento de embalagens para a
maioria dos clientes e os mesmos requerem este serviço quando seus novos produtos já
estão desenvolvidos. Isto demonstra o baixo envolvimento da Empresa no processo de desenvolvimento de
produtos de seus clientes. Além disto, os clientes JIT não procuram e não detém
estrutura para apoiar a AA a adotar o sistema JIT objetivando-se assim a disseminação da
filosofia até a ponta da cadeia de suprimentos.
A segunda entrevista foi realizada com uma empresa da indústria de implementos agrícolas
localizada no Rio Grande do Sul. A empresa conta com cerca de 1000 fornecedores, sendo que 300 são de
materiais diretos. Porém, apenas sete fornecedores operam com base no JIT. Isto ocorre por que a
empresa considera que não tem escala suficiente para desenvolver outros fornecedores desta forma.
Atualmente a empresa produz 45 unidades por dia. Estes sete fornecedores foram escolhidos pelo tamanho
físico de seus produtos, ou seja, a empresa não tem por objetivo criar espaço para
estocar estes itens.
O planejamento de produção se dá com base no forecasting recebido da
área de vendas. Depois de introduzido os dados no sistema MRP (Materials Resource Planning) as
necessidades de compras são analisadas. No início das operações da fábrica
destaca-se a baixa qualidade das informações de inventário ocasionando
situações de compra de peças que na verdade existiam no estoque da fábrica assim
como na não compra de peças que na verdade faltavam. Hoje esta situação
está regularizada. Um forecast anual é repassado para todos os fornecedores de
materiais diretos e alguns indiretos. Este forecast é atualizado semanalmente e as
previsões são consideradas estáveis no horizonte de um mês e meio. Para os
fornecedores JIT, a comunicação de necessidades ocorre de forma diária através de
EDI (Eletronic Data Interchange).
Os entrevistados citaram que outras dificuldades para se implementar o JIT de forma mais ampla, além
da baixa escala de produção, são os problemas de qualidade nas peças e a falta
delas por parte dos fornecedores. Um dos principais problemas logísticos que a empresa enfrenta
está no processo de importação de motores. Isto faz com que o perfil da
produção diária seja alterado constantemente e muitas vezes com freqüência
diária. A empresa ainda conta com um operador logístico que consolida as peças dos outros
fornecedores e entrega para a BB quando solicitadas. Um processo especifico de desenvolvimento de fornecedores
quanto a manufatura enxuta não existe pois não há sentido devido a baixa escala.
5. Conclusões
O objetivo deste trabalho foi analisar as percepções de empresas clientes e fornecedores quanto
às implicações das práticas do JIT (Just in Time) a partir do estudo de
caso. A partir de entrevista em empresas da cadeia do setor metal-mecânico foi possível
identificar o impacto e, sobretudo principais fatores da logística enxuta na relação
entre cliente e fornecedor.
Observou-se que adoção do JIT nas atividades de suprimentos nas duas empresas avaliadas ainda
se encontra em estágios iniciais e de forma limitada. Do ponto de vista da empresa fornecedora a
adaptação ao fornecimento enxuto serve apenas para o atendimento as exigências
mercadológicas de alguns clientes sendo que a mesma traz impactos e riscos assim como alguns
benefícios. Do ponto de vista da empresa cliente, o JIT não pode ser aplicado junto a todos os
fornecedores pela questão da falta de escala na sua atividade. Mesmo assim, para esta empresa, o JIT
é vantajoso devido à redução de estoques, principalmente aqueles que têm
maior impacto financeiro.
Foi possível evidenciar que a adoção do JIT nas empresas ainda se dá de forma
parcial, onde a redução de custos através da diminuição de estoques
é o foco principal da empresa cliente e para a empresa fornecedora uma oportunidade para se manter
competitiva no mercado. Outro aspecto relevante percebido foi a falta de cooperação entre
cliente e fornecedor, visto que não foi identificado uma política de desenvolvimento e de
envolvimento do fornecedor nos processos de desenvolvimento de produto, de adaptação interna de
processos e melhoria nas previsões de demanda.
De forma geral, pode-se dizer que os fatores positivos e negativos encontrados nessa
investigação são semelhantes aos achados da pesquisa de Arkader (1998). As
conclusões deste artigo não podem ser generalizadas porque apenas duas empresas foram avaliadas.
Portanto, sugere-se que estudos semelhantes sejam realizados e um número maior de empresas do segmento
agrícola.
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